
Formado em 1970 na cidade alemã de Dusseldorf pelo duo Ralf Hutter e Florian Schneider, o Kraftwerk é um dos mais importantes nomes da cena eletrônica, graças ao seu trabalho exploratório seminal que influenciou decisivamente a música technopop através de estilos como house, new beat, trance, drum’bass e, até mesmo, embora em menor escala, o rock.
A gravadora paulista Lua Music presta uma bela homenagem ao grupo alemão com o CD Kraftworld – Brazilian Tribute to Kraftwerk , que reúne 14 releituras de DJs brasileiros para clássicos do repertório da dupla, cujas experimentação e ousadia podiam ser vistas não só nas músicas que mesclavam conceitos como cibernética, robótica e engenharia espacial lado a lado com o atonalismo e o dodecafonismo.
Este experimentalismo com um pé fincado na vanguarda podia ser visto também nas capas do disco. Na era do vinil eram obras primas que traziam conceitos audiovisuais emprestados de searas estéticas vizinhas, como as artes plásticas. A tradução do nome da banda já traz em si mesma uma boa definição de suas propostas estilísticas. Kraftwerk significa “usina de forças. E é justamente dentro desse espírito coletivo de forças que DJs como Mau Mau, Renato Lopes, Rodrigo Ferrari e Magal, além de projetos como Oil Filter e Waterfronthouse, invadiram a praia basilar eletrônica do Kraftwerk, recriando, cada um a seu modo, a ambiência sonora da música original do grupo alemão, sempre em diálogo e consonância com fatores externos como a geopolítica mundial. Um dos segredos do êxito do Kraftwerk é exatamente este diálogo sempre profícuo com a história de seu tempo.
Trans Europe Express , recriado no CD da Lua Music pelo Waterfronthouse, ganha muita força nas pistas com a versão de Magal pondo os robôs em compasso acelerado, algo como se estivessem furiosamente descontrolados convocando todos para a dança; refere-se ao período da Unificação Européia com a criação de estradas que percorriam vários países. O ambiente automotivo também é lembrado em Autobahn , “pilotado” por Mozart Riggy. A sociedade informatizada ganha o relevo de Home Computer , embalado pela aura dançante do Sensory soberba senão uma das mais belas do CD. O Transportlive carrega forte sentimento opressivo em sua Metal On Metal.
PlayKiddo e Vera Medina com The Robots e Tour de France também são dignas de citações pelas boas horas de estúdio.
Mas é o medo de uma guerra atômica que gera um dos trabalhos mais instigantes do Kraftwerk, lançado em 1979, Radioactivity , um tratado sonoro que mistura o som de contadores gêigeres e usinas de beneficiamento atômico. O DJ Rodrigo Ferrari tem a missão mais difícil deste disco, ao desconstruir e reconstruir, sem destruir, a obra-prima original da dupla Hutter e Schneider. Damos os parabéns a iniciativa deste produto aos que dele participam e a Gonçalo Vinha pela visão do produto que coloca o Brasil mais um degrau acima na escala da música eletrônica mundial.